Gustavo Speridião | Lona

De 23 Maio 2015 a 04 Julho 2015

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Gustavo Speridião – Diário de Classe

 

“Declaramos a falência de tudo aquilo chamado arte.” Karel Teige, 1925

 

Atento ao fato de qualquer ação ou gesto sobre a superfície da tela – meio no qual a pintura, tantas vezes condenada ao fim no século XX – implicar uma consciência da história inerente às imagens, as obras de Gustavo Speridião aqui expostas na Anita Schwartz Galeria de Arte remetem a referencias tão plurais quanto o último tríptico de Rodchenko (que certificar-se-ia como a derradeira pintura possível), os Merz de Kurt Schwitters ou as Combine Paintings de Rauschenberg. Afinal, nelas percebemos uma redução cromática extrema (como nos monocromos que tomam uma secção da parede de alto a baixo), ou a agregação de objetos do cotidiano, como cartazes, antigas fichas funcionais e registros similares que, feitos dejetos, apagam mais do que as memórias, as pessoas e seus desejos. No entanto, não podemos nos trair com tal analogia sedutora e “condenarmos” Speridião a reencenar a história da arte moderna: na verdade, o artista não se reduz ao papel de um tradutor ou um produto acabado de uma longa cadeia da arte; ao contrário, tais pontos de contato existem antes sob a égide de uma reapropriação que é também uma “refuncionalização” daqueles processos, naquilo em que eles ainda se mostram capazes de deflagrar um choque e um desconforto ao espectador. Eles dependem da experiência cotidiana com a rua, seus cartazes e pichações, mensagens clandestinas e infiltradas no sistema, algo que percebemos não só em sua atuação fora dos domínios da arte, mas também como uma relação de contágio entre o “real” e a história, presente já em suas primeiras propostas, como na intervenção feita no início dos anos 2000 nas pilastras do antigo viaduto da Perimetral, criadoras de uma releitura “suja” do modelo visual da perspectiva.

 

Seus trabalhos não podem ser dissociados de uma inquietação frente a época em que vivemos, pois, para além de seus atritos cotidianos, se quisermos nos restringir a problemas “internos” da arte, incide-se na opção colocada à noção de trabalho artístico entre o risco da liberdade ou o conforto da pactuação. É isso, inclusive, que lhe permite explorar linguagens tão variadas quanto a pintura ou o filme, pois ele não subscreve nem a mitologia positivista de meios (a “superação” da pintura por outras linguagens e tecnologias), nem, por extensão sua fetichização. A disponibilidade perante eles é antes a mescla da urgência em afirmar suas posições éticas com a perquirição da viabilidade histórica dos mesmos, indagando, por exemplo, como a pintura pode (ou não) existir como o resultado de um trabalho (consciente) e não de um labor (submisso, comprometido e mecânico), cujo risco é não ser assimilada como mercadoria viável. Não é um problema fácil de lidar e sua resolução é incerta, mas ele mostra-se inevitável e decisivo para alguém que ainda hoje admite, por exemplo, enfrentar uma tela. Nesse sentido, suas colagens só podem ser entendidas a partir da agregação de um novo conteúdo – explicitamente político e inescapavelmente “inconveniente” e desafiador – que impede que tal diálogo com a arte se veja reduzido a procedimentos meramente estéticos ou “estratégicos”.

 

E o que são essas obras? Anotações contínuas de sua posição perante o que arrisca ter se tornado a tal relação trabalho x labor artístico no neofetichismo celebratório de uma nova fase da globalização. Gustavo é talvez de seus pares o único artista radicalmente político, naquilo em que lembra-nos que a arte é menos um território de compromissos do que de aspirações subjetivas mais ambiciosas, corajosas o bastante para apostar tudo na sua franqueza em externar seu desajuste frente ao desalentado (e falso) conformismo predominante e edulcorado que implora por ser assimilado, aceito – a catequese do “mundo possível”, a micropolítica dos consensos. Suas apropriações são um mapa-mundi de uma era que vacila (ou teme) enfrentar sua adversidade, pois os fragmentos que recolhe obrigam-nos a defrontar um território instável – como demonstram as grandes telas aqui presentes, compostas de documentos das mais diversas origens, que, com sua franqueza e brutalidade fazem-nos conscientes do escândalo da vida adaptada (e mortificada) não à banalidade, mas à conformação ao dia-a-dia e ao consequente apagamento e diluição no fluxo de um mundo que renuncia ao escrutínio crítico pelo princípio da sucessão contínua e anódina de fatos... Onde foram parar todos aqueles ali lembrados em suas telas? Seriam elas por conta disso – literalmente – monumentais? “Nós tiramos A. [a arte] de seu trono sagrado e cuspimos em seu altar” (Malevich, 1915)... “that is all Ye know on earth, and all ye need to know”(Keats, aqui desmembrado).

Guilherme Bueno

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